Estou aqui para contar de alguns fatos do qual sou testemunha. Meu nome é Renato Afonso, e eu conheci Aila, quando era um jovem garoto, no condomínio Carvalhos, da avenida D.
"Sweet dreams are made of this, who am I to disagree…"
A voz sinistra cochichava e deixava os dois jovens atrás da porta assustados, já haviam ouvido aquela música, mas, aquela versão os deixava arrepiados, não mais que a imagem da mulher tranquila dentro do apartamento, era satanista, talvez fosse uma bruxa, queriam descobrir algo e por isso estavam ali.
Sem nada descobrir além de um gosto musical que lhe era peculiar, foram embora, mas, não saiam de sua mente os eventos, desde que aquela mulher chegara o prédio estava assombrado, ela trouxera com ela algo de maligno, tinham certeza.
Para que vocês saibam, esses dois garotos eram meu amigo Pedro e Eu.
A mulher no apartamento tinha os cabelos negros lisos, a pele branca, as unhas negras e o constante vestuário preto, chamava atenção onde passava, não só pelo seu estilo de vida, mas, pela sua inegável beleza.
Aila, era seu nome. E por aí terminava tudo o que sabiam dela. Além do fato de que desde que aquela mulher havia se mudado, coisas estranhas começaram a acontecer no prédio.
As luzes que se apagaram de repente, o cheiro constante de mofo, as crianças se tornaram rebeldes ao extremo, a criança encontrada morta na piscina e o sangue na parede:
"Saia ou morra"
Os moradores não poderiam mais tolerar a presença daquela mulher, sobre o caso da criança ela depôs e foi dispensada pela polícia, aparentemente não estava no prédio quando ocorreu, mas, o que policiais entendem sobre os poderes ocultos sobrenaturais?
Pedro e eu estávamos sempre nos acercando das rodas de conversa dos moradores sobre a mulher, como ainda éramos um bocado criança, era só fingir que estávamos brincando e ninguém ligava muito.
Os moradores decidiram por uma convenção na qual formalmente entregaram ao síndico abaixo assinado pela expulsão daquela mulher. Seria o fim de seu pesadelo, Aldo Júnior do sétimo andar havia se mudado, mas, nem todos estavam dispostos a deixar seu lugar.
Certa noite, um pentagrama no chão, o fogo, e as palavras em uma língua que parecia vinda do inferno, tudo isso no meio da noite nos fundos do condomínio relativamente novo, de duas torres. Estava lá a prova do crime daquela mulher, era uma bruxa, munidos de paus e pedras, facas e qualquer coisa que encontraram no caminho os moradores foram ao encontro daquele ser satânico, seria a hora de se defenderem daquilo tudo.
- Bruxa, saia ou a matamos, não deixaremos nosso lar.
A criatura com os olhos tranquilos, negros como a noite mais escura, nada esboçou de reação além de levar o dedo indicador aos lábios e mantê-lo na vertical por algo que uns dez segundos.
Uma nuvem negra apareceu aterrorizando a todos, e uma voz que parecia mil vozes dizia:
"Vá embora ou morra"
Aquela clara ameaça vinha da bruxa, com seus demônios, estavam todos atônitos. Aila que parecia olhar para o infinito falou suavemente.
O seu tempo acabou, o passado já se foi, hoje este é um novo lugar, com novas pessoas, devem seguir o seu destino para além desta terra.
E foi que de repente, uma multidão, não a dos moradores, mas, uma outra multidão apareceu naquele lugar. Todos vestidos com trajes antigos, uns aos modos dos séculos XIX e outros do início do século XX.
A essa hora todos correram, exceto Pedro e Eu, acharam que era o exército da Bruxa!
Aila resignadamente falou a nova multidão:
Vão, estão presos pelo meu feitiço, ficarão para sempre na posição que estão a não ser que decidam seguir o caminho que Deus lhes está abrindo, unam-se a essência vital do mundo, vivam em outros corpos, como quiserem, mas este não é mais o seu lugar.
Um a um a multidão se dispersou e Aila contemplou o vazio onde antes havia aquela multidão etérea, até perceber que não estava sozinha, notou os dois moleques escondidos.
Por um momento houve o mais absoluto silêncio, um silêncio cheio de segredos e nossas curiosidades, foi ela quem decidiu quebrá-lo.
- Podem sair daí, não há perigo
- Irado! Disse Pedro, com seu entusiasmo característico
Ela apenas soltou um curto riso, daqueles com um arzinho no final.
Fui eu quem perguntou:
– Mas o que diabos aconteceu aqui? - Sem ofensa.
– Cuidar das pessoas, vivas ou mortas é uma tarefa difícil. É meu trabalho. É isso que vocês acabaram de ver.
Pedro, sempre direto, falou baixo:
– Eu sempre disse que via gente morta por aqui.
– Isso é um dom – respondeu Aila, sem julgamento. – Quando as almas estão no meu laço, todos podem vê-las. Fora dele... só alguns conseguem.
– E eu que nunca te dei crédito, maninho – falei, olhando para Pedro, ainda embasbacado.
Naquela noite, nossa conversa não se prolongou muito. Nos dias seguintes, Aila simplesmente se mudou. Nenhum aviso, nenhuma explicação. Só deixou pra trás um papel com um número rabiscado e uma frase escrita em letra firme:
“Se algo acontecer, me ligue.”
Na época, achei aquilo mais simbólico do que outra coisa qualquer, afinal, quem pensa que vai precisar de ajuda... desse tipo?